SOBRE HIPNOSE  
     
 

Os Caminhos da Hipnose Terapêutica

Em outubro de 1974, a OMS expressou um parecer reconhecendo a hipnose moderna como “o maior avanço da Psiquiatria”, considerando que a hipnose “atua no campo terapêutico, enquanto os estudos da bioquímica o são no campo das etiologias”. Mas, a história do uso da hipnose terapêutica talvez seja tão antiga como a própria história da humanidade.

Entretanto, a história da hipnose terapêutica é quase tão antiga quanto a história da humanidade. No antigo Egito, o sono hipnótico era usado para fins terapêuticos nos chamados “templos do sono”, onde pessoas eram tratadas de várias doenças. Posteriormente, os gregos adotaram as técnicas dos “templos do sono” dos egípcios e há inscrições revelando curas de paralisia, epilepsia, cegueira, hidropsia, feridas, cefaléias, esterilidade etc.

A primeira iniciativa para a análise crítica do estado hipnótico surgiu na Idade Média. Paracelso (1493-1541) valia-se de um imã nas suas “curas” e criou o termo “magnetismo animal” para explicar esse “fluido desconhecido mediante o qual o homem poderia exercer influência sobre outros e sobre objetos”. Mas Franz Mesmer (1734-1815) mostrou que não era necessário um imã para o tratamento hipnótico, bastava a influência do hipnotista sobre o paciente. Mais tarde, Braid (1795-1860) criou o termo hipnotismo (do grego hypnos=sono) e se aprofundou no estudo do estado hipnótico. Provou que a fixação do olhar não era suficiente per si para a indução hipnótica, mostrando a importância do monodeismo (capacidade de se concentrar em idéia única) nesse caso, como considerado hoje por muitos autores.

Após haver alcançado sua consagração com os trabalhos desses pesquisadores e de muitos outros daquela época, a hipnose terapêutica sofreu rápida decadência. Isto devido a um grupo francês liderado por Charcot (1825-1893) que acreditava que apenas pessoas histéricas podiam ser hipnotizadas e considerava idênticos o estado hipnótico e o surto histérico. Assim surgiu a noção de que a hipnose era perigosa, pois as afirmações falsas feitas por Pierre Janet (1857-1947), colaborador próximo de Charcot, estimularam a imaginação de escritores de romances policiais, histórias em quadrinhos etc., que passaram a falar de “dominação hipnótica”.

Também Freud (1856–1939), discípulo de Charcot, partiu de uma noção bastante errônea do tratamento por hipnose, pois considerava a sugestão como sendo a essência desta terapia. Isto deu origem à sua idéia de que a hipnose só servia para levar ao paciente, sugestões capazes apenas de encobrir seus verdadeiros conflitos. Nessa época pouco era conhecido sobre a Neurofisiologia e os processos biolelétricos envolvidos no funcionamento do cérebro. Quase nada se conhecia da influência do sistema endócrino sobre o comportamento.

Hoje sabemos que, ao contrário do que pensava o grupo de Charcot, o processo hipnótico necessita que o indivíduo tenha boa capacidade para o monodeismo, como já fora reconhecido por Braid. Pessoas muito ansiosas ou portadoras de certas doenças psiquiátricas não são hipnotizadas com facilidade. É claro que um estado emocional intenso em pessoas psiquiatricamente sadias facilita a indução hipnótica, pois desse estado sobrevêm um conjunto de manifestações psicofisiológicas que funciona como um poderoso fator de indução.

Foi Erickson (1901-1980) quem com seus estudos ressuscitou a hipnose como terapia, tendo criado várias técnicas hipnoterapêuticas que são aplicadas até hoje. Segundo a sua visão o inconsciente é parte da conexão mente-corpo, pois armazena conhecimentos e tem o potencial para prover o indivíduo da capacidade de superar suas dificuldades. Considerou o inconsciente de uma pessoa como um forte recurso para a solução de problemas para o seu crescimento e mudança no seu comportamento. Na sua visão, as manifestações da doença não eram inerentemente patológicas, mas sim um sinal de que a “aprendizagem automática”, ou o “conjunto das primeiras aprendizagens”, não estava sendo adequadamente utilizada em uma situação particular da vida de um indivíduo.     

Os estudos de Erickson foram ampliados e a Hipnose retornou à medicina dentro de uma nova visão, que é alimentada e, gradativamente, ampliada por pesquisas científicas cada vez mais abrangentes em termos de correlações.

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